Percursos da Memória 2017

 22 de abril

cartaz sabor douro a4

 Sabor do Douro

pelos caminhos do ferro, passado e futuro

A razão de que nos leva a voltar à rede ferroviária do Douro é duplamente evidente. Por um lado o valor patrimonial e histórico do facto em si versus o abandono deliberado, irresponsável e (in)justificado, parecendo tratar-se de um desígnio planificado e assumido, por outro o facto de este ano se juntarem uma série de datas evocativas, que deveriam ser de celebração e regozijo e são oficialmente ignoradas e entristecidas.

Fez 160 anos (em 28 do Outubro próximo passado) que D. Pedro V inaugurou o comboio em Portugal, com a viagem iniciática da locomotiva D. Luiz e das suas catorze carruagens, que foram ficando pelo caminho à exceção da real, entre Lisboa e o Carregado. Também no dia 10 de Janeiro passado passaram 130 anos que a linha do Douro se abriu até ao Pocinho e farão 130 anos em 9 de Dezembro próximo que a linha chegou a Barca d’Alva. Ainda, se quisermos concentrar-nos no pedaço da rede que vamos visitar, fez, neste 21 de Março, 112 anos que foi lançado o concurso para duas empreitadas no troço entre Pocinho e Moncorvo; a ponte sobre o Douro, início da linha, estaria construída no ano seguinte, preparada em termos de resistência da estrutura a uma possível adaptação a via larga…

Já agora toda a linha do Sabor, bem como a do Douro a partir do Pocinho até Barca d’Alva, foram encerradas vai fazer, em 2018, 30 anos exatos.

O Douro foi inicialmente um caminho de água, até ao séc. XIX o único meio de comunicação, por onde passavam gentes e produtos, o produto essencial do vale e cerros, exportado a partir do séc. XVII. Mas o rio era difícil de navegar apesar da demolição do Cachão da Valeira pelos 1780-90 que permitiu a viagem fluvial até Barca d’Alva.

O caminho de ferro foi uma alternativa eficaz e progressista para o transporte de produtos para dentro e para fora da região, a deslocação da população e a quebra do isolamento do interior da região. A epopeia que constituiu o seu planeamento e construção, o progresso e novidade tecnológica que trouxe, o serviço que prestou à região e ao país, não poderiam ser desbaratados ou esquecidos. Ainda por cima o tempo haveria de dar razão a questões de sustentabilidade e ambientais para o aproveitamento da linha férrea…

Em 1900 chegou a ser lavrado um projeto de expansão, prolongamento e interligação das linhas do Douro, mas a verdade é que, com as questões de rentabilidade, o desenvolvimento da rodovia em franco desfavor da ferrovia, os interesses paralelos e o declínio das “linhas ferroviárias de tráfico reduzido”, trouxeram o encerramento e total abandono da maior parte da rede. Desde logo a espinha dorsal, o Douro, foi encerrado entre o Pocinho e Barca d’Alva em 1988, juntamente com todo o Sabor. O Tâmega encerrou até Amarante em 1990 e daí até ao Arco de Baúlhe em 2009, o Corgo encerrou de Vila Real a Chaves em 1906 e da Régua a Vila Real em 2009 e o Tua fechou de Mirandela até Macedo em 1991 e até Bragança no ano seguinte, e de Foz Tua até ao Cachão em 2008 na sequência de estranhos acidentes consecutivos, ficando o metro que acabará com a “nova mobilidade” do “Parque Natural do Vale do Tua”… Em três dos afluentes há construção de barragens com sequência.

O abandono e a degradação de tão importante património, história e testemunho, já nos levou a dois dos caminhos afluentes e ao Douro, ele próprio. Desta vez o Sabor, uma via que, não tendo sido afetada pela albufeira decorrente da barragem que ocluiu o rio, mantém intacta toda a extensão da sua via, uma parte já aproveitada com utilização diferente da que lhe deu vida.

Vamos visitar uma parte da via degradada, mas mantida com madeira e ferro, acabando na fabulosa ponte rodoferroviária sobre o Douro, onde falaremos sobre a ligação óbvia das duas vias em água, ferro e destino.

Vamos percorrer depois uma parte da via transformada em “ecopista”, como exemplo de um dos futuros possíveis, começando pelo… ferro. As minas de ferro do Carvalhal foram uma das razões de ser da linha, e não deixa de ser curioso que, quando se começou a falar na reativação prevista da mineração, se tenha previsto o escoamento do minério por via férrea, o que pressuporia a reativação da linha… Ao que parece já não será, não poderia ser, assim! A ecopista, que não é mais que a linha sem madeira nem ferro, manteve as estações e apeadeiros em estado razoável de manutenção. A estação do Larinho, onde acabaremos, está em excelente estado.

Acabaremos o evento com uma visita ao Museu do Ferro em Moncorvo. Faz todo o sentido!

Vamos ao Douro e aos seus caminhos de ferro, o passado glorioso e o futuro incerto!...